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Para sempre

 Grossas Gotas jorram dos meus olhos saudosos de te não ver, de te não ouvir, de te não sentir e  precipitam-se em choro para os lábios entreabertos , gotejando  lentamente para um imenso mar de saudades.  3/ junho/ 2026 1 ano 

O monólogo dos varridos

 É assim que a  enxada verga a espinha  calos saltam das mãos enxovalhadas  Os olhos rudes, secos, sérios Uma cara sem brilho, tosca.  É assim que deixam  A verdade sempre ansiada  Raptada , longe da luz,  Escondida atrás dos vultos  Que Não descansam Sem maldosamente Partir a haste  O  pão no chão  Espalhado  sem razão  Assim cospem uma cara honesta Até os sonhos se despedaçam  Tão pesado é o fardo Tão pesada é a vingança  A semeadura já nem dá grão  a comida podre levanta do chão  O bicho entra na boca  Apodreces tu  E apodrecemos nós também . 

O homem não

 Livres são as aves todas do céu  as flores silvestres do campo   As águas límpidas do riacho  soltam  burburinhos de vozes sussurantes  e mansas  Livres são  as cascatas ruidosas  sem medo de explodir  precipício abaixo num ronco  brutal ! E os rios? os rios não param,   não esperam que a pedra se quebre e permita passar , ou os muros se afastem.  Não,  nunca ! Lentamente a corrente vai contornando  a  impermeabilidade da pedra dura, amolecendo a dureza da terra Há  caminhos pantanosos , areias movediças e certas  águas apanhadas Nem contornar, nem enfrentar...mas há fios  de água que  criam  atalhos , um alívio, ter força para seguir  e esperanca para continuar.   Tristes são  águas  paradas  destilando a doença que mata.  Cada rio segue a  braçadas o seu destino até se lançar  ao mar  E quando mar e vento se  emaranh...

Amanhã, Sexta Feira Santa que Deus me perdoe!

Foi naquele inesquecível mês de junho de dois mil e vinte e cinco Dia três, m ais precisamente às dezasseis e trinta e oito minutos  Que a desgraça  se abateu sobre mim  Sob o comando de uma mão que calça luva negra E bata de satã,  mulher ardilosa que repete  Mente sobre  o Juramento de Hipócrates  Desumana, escura, fingindo-se passar  Por curandeira  salvadora de almas à beira do precipício Pior que a morte  Empurra mais depressa a vítima E afirma com aqueles dentes aguçados de drácula: Você é que sabe, a senhora é que sabe! num tom alterado, As orelhas achatadas para trás,  cauda chicoteando , Pelos eriçados , rosnados, bufados e agressiva  Com mordidas e arranhões. Uma felina perigosa.  Pois sei, por mim, enchia-te esse cabelo de cordas sujas Para ficares bem  aromática e insuportável  Metia-te nessa cara esconjurada  O tal pó de anjo, no lugar da morfina, A droga mais eficiente , a fenciclidina e altame...

Desencanto dos cantos

Eu era menina E escondia-me nos cantos isolados  Sozinha  Fugia de outros cantos da casa  Queria viver dentro dos livros   Certo dia minha mãe chegou Surgiu devagar As mãos mexiam nervosas As unhas  encarnadas E o medo  apertava os labios finos   tom suave de batom  A sombrinha clara sobre as pálpebras.  Sem esquecer as do rosto... A graciosidade do cabelo apanhado O sapatinho de salto O fatinho rosa clarinho  A blusa um bocadinho aberta Sem se vislumbrar o vinco do peito  Os brincos...brilhantes, discretos Ah! Nunca tinha visto minha mãe  tão linda! O som do trinco da porta veio até nós  Saltámos  com os corações  alvoroçados Eu em sinal de sentido  Encostada à parede do quarto A minha mae   travada ao meu lado  Ele não nos viu... Sentou-se à mesa  Derreei-me   e espreitei ... O talher na mão direita ia à boca Mastigação  apressada O cotovelo esquerdo apoiado na ...

O encanto dos cantos

 As saudades chegam de todos os cantos Do canto da janela Vejo-te nova  A puxar o tapasol Para afastar a luz  fumegante do sol E ficares ali a, ver meu  pai  Que já vem Fazer a curva da ponte Homem trabalhador honrado A sombra grande, transpirada   direita Os ombros  A baixar lentamente  Os braços esticados,  verticalidade perfeita Os dedos amarrados  aos sacos    Mal nos via, a comida já na mesa  À espera daquelas mãos àsperas  Daquele corpo, uma gruta   de fome O fumo já tinha desaparecido  Os olhos azuis  secos, sérios  Inexpressivos, apressados E ias de novo à janela  Abrir o tapasol E vias a curva da estrada  Puxá-lo para lá Para longe  Até desaparecer.  

Surgiu de novo

 Coisas muito bem guardadas, são coisas escondidas e coisas escondidas são coisas esquecidas!