Desencanto dos cantos
Eu era menina
E escondia-me nos cantos isolados
Sozinha
Fugia de outros cantos da casa
Queria viver dentro dos livros
Certo dia minha mãe chegou
Surgiu devagar
As mãos mexiam nervosas
As unhas encarnadas
E o medo apertava os labios finos
tom suave de batom
A sombrinha clara sobre as pálpebras.
Sem esquecer as do rosto...
A graciosidade do cabelo apanhado
O sapatinho de salto
A blusa um bocadinho aberta
Sem se vislumbrar o vinco do peito
Os brincos...brilhantes, discretos
Ah! Nunca tinha visto minha mãe tão linda!
O som do trinco da porta veio até nós
Saltámos com os corações alvoroçados
Eu em sinal de sentido
Encostada à parede do quarto
A minha mae travada ao meu lado
Ele não nos viu...
Sentou-se à mesa
Derreei-me e espreitei ...
O talher na mão direita ia à boca
Mastigação apressada
O cotovelo esquerdo apoiado na mesa
E a mão a segurar a cabeça
Vezes a miúdo suspirava
Chamou por nós
Levantou-se da mesa
Depositou um beijo
Na minha testa.
Quando se endireitou
Deu de caras com a minha mãe
Que sorria à espera de outro sorriso
A voz àspera, o rosto belo mas escuro
Os olhos claros e carrancudos , a prega cavada entre eles
Perdeste o juízo!? declarou firme
Porquê?
Tira essa porcaria toda ; unhas, boca, olhos,cara. Não precisas disso , nem decotes, é abotoado até cima. Entendido? - O tom de voz subiu
A minha irmã usa e fica-lhe bem. Eu gosto.
Casaste comigo, não foi com a tua irmã.
Mas não é sempre.
Levantou o braço esquerdo
O mesmo lado que segurou a cabeça, à mesa.
Abriu os dedos e aproximou do rosto dela
Eu não quero nada disso! - berrou e encolhemos de medo
Tira essa sujidade toda, ou eu mesmo tiro-te! Mais logo não quero ver nada disso! Essa roupa , é para aos domingos quando formos à minha mae. Agora usa outra mais simples. O teu marido sou eu , não são os outros.
Minha mãe baixou a cabeça e retirou-se em silêncio.
Vi-lhe os olhos lacrimejantes
Meu pai baixou- se, supus que para um beijo
Voltei o rosto para o lado oposto
Ele forçou o meu queixo e disse baixo
Livra-te de te pintares como a tua mãe, entendido?
Não respondi
Forçou o queixo com raiva que até me machucar.
Olha para mim quando falo contigo e responde:
Entendi.
Entendi? Com quem julgas que estás a falar? Entendi sim senhor!Repete!
Entendi sim senhor.
Ah, agora sim . Até logo menina! -disse manso
Fiquei em silêncio
Eu vou-te dobrar ! - prometeu seco
Tive vontade de o matar.