As saudades chegam de todos os cantos Do canto da janela Vejo-te nova A puxar o tapasol Para afastar a luz fumegante do sol E ficares ali a, ver meu pai Que já vem Fazer a curva da ponte Homem trabalhador honrado A sombra grande, transpirada direita Os ombros A baixar lentamente Os braços esticados, verticalidade perfeita Os dedos amarrados aos sacos Mal nos via, a comida já na mesa À espera daquelas mãos àsperas Daquele corpo, uma gruta de fome O fumo já tinha desaparecido Os olhos azuis secos, sérios Inexpressivos, apressados E ias de novo à janela Abrir o tapasol E vias a curva da estrada Puxá-lo para lá Para longe Até desaparecer.
Quando chegaste deram-te cura Mas foi sol de pouca dura Era preciso saír dali O mais depressa possível Encontrar um abrigo Para as mazelas sofridas Julguei-te protegida A curar- se ali Engano meu Má sorte para ti Encaixaram-te num quarto Onde o sol se metia todo ali O teu semblante calmo, Sereno, repousante Que força era essa, mãe Que tinhas nos braços ? Nem um gemido, nem um ai... Apanharam o deslize E trataram logo de ti Injetaram o quê?! Que diabo fizeram contigo? Logo tu que querias viver mais Mas eles não pensaram assim Querias te levantar da cama E fugir dali ? Mas eles nunca permitiriam Passaste a ser uma presa fácil A cura ? A injeção letal ! No corredor da morte Como se respirar fosse um crime Estoiraram a tua massa encefálica E eu fiquei a ver... O meu coração angustiado Como um louco desorientado Que te estão a fazer...